FHC: os desafios do Brasil na visão do ex-presidente

2022 E O FUTURO DO BRASIL

por Fernando Henrique Cardoso

“Em 2022, o Brasil fará 200 anos como nação independente. Haverá eleições presidenciais. Não é exagero dizer que serão decisivas. A história não costuma perdoar nações que erram em conjunturas críticas de mudança global. Esta é uma delas.

Desde a temperatura do planeta até a geopolítica mundial, passando pela fronteira do progresso tecnológico, quase tudo se move rapidamente e exige capacidade de resposta de governos, empresas e sociedade a uma realidade cambiante.

Países com melhor governança e maior discernimento sobre as áreas em que podem liderar as mudanças ou se adaptar a elas terão melhores condições de preservar maior autonomia relativa na construção de seu lugar e de seu destino no mundo que vai se desenhando. O Brasil não tem tempo a desperdiçar.

Na última década, o país teve seu pior desempenho econômico em mais de um século. Entre 2011 e 2020, o PIB cresceu em média 0,3% ao ano. Em termos per capita, o PIB decresceu. Ou seja, o país tornou-se mais pobre. Com a produtividade e o investimento em queda, também o PIB potencial caiu. Não conseguimos aproveitar as condições internas e externas favoráveis da primeira década do século para dar sustentação ao ciclo virtuoso de maior crescimento e redução da pobreza e da desigualdade então vigentes.

A história não costuma perdoar nações que erram em conjunturas críticas de mudança global. Esta é uma delas

Ao contrário, repetimos erros conhecidos, com políticas econômicas inspiradas no passado do estatal-desenvolvimentismo. Perdemos, assim, o que restava do chamado “bônus demográfico” e dificultamos nossa trajetória futura como país que necessita e aspira escapar à “armadilha da renda média”.

No apagar da década, em 2020, fomos atingidos, em posição frágil, pela pandemia de covid-19. A incompetente resposta do governo federal à pandemia, para dizer o mínimo, agravou suas consequências. Com 600 mil mortos, o Brasil se encontra hoje entre os dez países com maior número de vítimas fatais da covid no mundo, por grupo de 100 mil habitantes.

Os efeitos socioeconômicos da crise sanitária tendem a ser prolongados. A pobreza e a desigualdade, que já vinham em alta desde a recessão de meados da década, se acentuaram. A população mais pobre foi a mais prejudicada pela suspensão das aulas presenciais. Sem poder trabalhar em home office, não apenas a letalidade da doença foi maior entre os mais pobres como também maior será a prevalência de sequelas entre eles.

Visto pelo ângulo do mercado de trabalho, o quadro social é igualmente dramático. A pandemia produziu uma redução expressiva da população economicamente ativa. Aumentou o contingente de desalentados, que se retiraram da força de trabalho. A proporção de jovens que nem estudam nem trabalham atingiu níveis recorde. A perda de anos de escolaridade e de inserção no mercado de trabalho tende a reduzir a produtividade e a renda das pessoas atingidas, tanto mais em períodos de rápida mudança tecnológica como o que estamos vivendo agora.

A evolução negativa dos indicadores sociais e econômicos da última década é indissociável de uma situação de crise política recorrente. O presidencialismo de coalizão passou a mostrar déficits crescentes de legitimidade e desempenho, num contexto de sucessivos escândalos de corrupção, desestruturação e fragmentação do sistema partidário, descrédito crescente das instituições da democracia representativa, polarização política e alargamento da zona de conflito entre os Poderes da República.

O Brasil perdeu a década e o rumo. Em 2018, elegeu um presidente de extrema direita, inepto para o cargo e obcecado pela destruição do regime constitucional criado em 1988. Bolsonaro não encontrou forças para levar a cabo sua obsessão, mas provocou danos ao país e à sua imagem no exterior que exigem um trabalho de reconstrução em várias áreas no próximo mandato presidencial, a começar pela reafirmação da democracia-liberal. A reconstrução terá de ser feita com os pés no chão, mas com o farol alto: que nação queremos ser?

Na transição global para uma economia de baixo carbono, num mundo que valoriza cada vez mais a energia limpa e a segurança dos alimentos, o Brasil tem tudo para ser vitorioso se souber integrar meio ambiente, agronegócio e energia em bases socioeconômicas e ambientais vantajosas. Não faltará financiamento interno e externo para bons projetos públicos e privados com esse objetivo.

Além de recursos, precisamos mobilizar conhecimento científico e aplicá-lo. Em vez de assistir à evasão de cérebros, devemos estimular a cooperação de cientistas brasileiros e estrangeiros em programas nas áreas de biotecnologia. Deter o desmatamento da Amazônia, recuperar áreas degradadas e avançar na bioeconomia abrirá uma avenida de oportunidades para geração de riqueza e empregos de boa qualidade no Brasil.

A reconstrução terá de ser feita com os pés no chão, mas com o farol alto: que nação queremos ser?

A digitalização acelerada da economia e da sociedade pode ser uma oportunidade para darmos um salto em matéria de qualidade e produtividade no setor público e no setor privado. Para ficar em um só exemplo, a disseminação da telemedicina pela rede do SUS cria perspectivas inéditas de acesso a serviços públicos de saúde, com ganhos de qualidade.

A inevitável mudança tecnológica requer um esforço nacional coordenado de retreinamento e aperfeiçoamento profissional de amplos contingentes de trabalhadores. Junto, deve vir o fortalecimento da rede de proteção social para suavizar os custos de transição no emprego de novas tecnologias e para amparar os que tiverem maior dificuldade de inserção no mercado de trabalho.

É urgente voltar a pensar na nação com realismo, mas com ambição. O realismo exige cuidar do equilíbrio macroeconômico, já a ambição requer definir grandes objetivos mobilizadores. Para que a esperança retorne, é indispensável o bom governo, que ajude a coordenar esforços, com competência, sensibilidade popular e espírito democrático, em lugar de dividir o país.”

Fonte: Série Infomoney | Imagem: Agência Brasil

Entre em contato conosco: (11) 99332-0861 | Rua Amazonas, 439 CJ 45 – São Caetano do Sul XP (ABC) | Av. Ibirapuera, 1753 – XP Moema – SP.

Deixe um comentário

Parabéns, sua solicitação foi recebida e você acaba de receber gratuitamente nosso incrível ebook.

Para baixar acesse o seu e-mail.